ENTREVISTA

A brilhante atuação de Rubens Barbosa na diplomacia brasileira

A sociedade brasileira tem o hábito de eleger alguns mitos para espelhar-se. Rubens Barbosa é um dos grandes nomes de nossa diplomacia e pode ser, sem sombra de dúvidas, um exemplo a ser seguido.


Sílvia Garcia, de São Paulo

A diplomacia é o verdadeiro sonho dourado de muitos aspirantes às carreiras relacionadas ao Comércio Exterior. Em uma das reflexões do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso ele afirma que "há coisas que, por sua natureza, possuem uma vocação de permanência, de tradição, de contato com o passado. A diplomacia... é certamente uma delas. A política exterior está vinculada fundamentalmente a interesses nacionais de longo prazo, permanentes... Nada disso, contudo, significa que a diplomacia esteja isenta de sofrer os efeitos da passagem do tempo. Os países mudam, as sociedades se transformam, envelhecem as visões de mundo, e os diplomatas se defrontam com o desafio de responder aos novos tempos sem perder as referências tradicionais."

Essa análise de Fernando Henrique vem elucidar porque o Brasil tem uma gama de diplomatas tão diversificada ao longo da história, que reúne nomes como Barão do Rio Branco, Vinícius de Moraes, Roberto Campos, Guimarães Rosa, Rubens Ricupero, João Cabral de Melo Neto, Marcílio Marques Moreira, entre outras respeitáveis personalidades, que além da carreira pública atuaram em outros campos como história, música, literatura ou economia.

Nesta emocionante entrevista, o embaixador do Brasil em Washington, Rubens Barbosa, que está em via de aposentar-se, faz um review de sua carreira diplomática e fala de seus momentos mais inesquecíveis, entre eles, a entrega de suas credenciais à Rainha Elizabeth II ao assumir o posto de Embaixador em Londres.

Barbosa também aponta as complexidades da carreira e a importância do jogo de cintura e dá algumas dicas para a formação na área. Confira.

 
  EstudeComex – Quais são os caminhos para se chegar à diplomacia brasileira? O que compõe a formação de um diplomata e como deve ser o seu perfil?
Rubens Barbosa
– O único caminho é por meio de concurso (muito difícil) realizado anualmente pela academia diplomática brasileira, o Instituto Rio Branco, vinculado ao Itamarat
y. O diplomata, em geral, tem formação universitária, um conhecimento geral de tudo o que ocorre no Brasil e no mundo e dedica-se exclusivamente ao serviço público. Deve estar preparado para uma forte competição na carreira e deve poder adaptar-se à vida fora do Brasil.

Como foi o seu ingresso na carreira diplomática? Houve outros cargos que a antecederam? Conte-nos um pouco sobre sua trajetória profissional.
Rubens Barbosa
– Decidi cedo ingressar na carreira diplomática, quando estudava no colégio Dante Alighieri, antes de entrar para a Faculdade de Direito no Largo São Francisco. Fiz o Instituto Rio Branco junto com os últimos anos da Faculdade de Direit
o. Nunca havia trabalhado no serviço público antes de entrar para o Itamaraty.

Em 1962, comecei a trabalhar como Terceiro Secretário, o degrau inicial da carreira. Em 1963, fui designado para trabalhar em Brasília, no Gabinete do Ministro, como assessor parlamentar. Em 1966, fui removido para a Embaixada em Londres, onde fiquei até 1972. Voltei a Brasília, onde trabalhei dentro e fora do Itamaraty, inclusive na Presidência da República, no programa de desburocratização, até 1985. Embaixador junto a Aladi até 90, voltei para criar o Departamento de Integração e depois a Subsecretaria de Integração Regional, Comércio Exterior e Economia para coordenar nacionalmente as negociações do Mercosul. Em 1994, fui designado Embaixador no Reino Unido, em Londres, e, em 1999, Embaixador nos EUA, em Washington.

Quais são as principais aspirações na carreira de um diplomata?
Rubens Barbosa
– Dizem as más línguas que as principais aspirações na carreira são promoção rápida e remoções para bons postos no exterior... Na realidade, a maioria dos diplomatas aspira a servir o Brasil, da melhor maneira possível. Dedicação e espírito público são os maiores apanágios do Itamaraty.

Que conselho daria a um estudante que sonha em ingressar na diplomacia brasileira? Quais são os desafios para os quais deve estar preparado?
Rubens Barbosa
– O segredo é a informação correta. Saber em detalhes as condições e o que se requer nos exames de admissão. Não estou acompanhando isso e não estou a par do que está sendo requerido hoje. Conversar com outros candidatos. Ver como foi o exame dos anos anteriores. E estudar muito. Conhecer e falar fluentemente inglês e uma segunda língua (francês, espanhol).

O maior desafio é enfrentar a forte competição interna (competição intelectual e muitas vezes política) com serenidade e ajustar-se à vida no exterior, muitas vezes longe dos filhos, dos parentes, dos amigos. Nem sempre é fácil. Muita gente fica pelo caminho...

Fale sobre as principais dificuldades e complexidades enfrentadas no início e ao longo da carreira de diplomata.
Rubens Barbosa
– Creio que vale o que acabo de dizer. Para fazer uma carreira bem-sucedida (porque há os que se acomodam e aceitam uma vida tranqüila no exterior, abrindo mão de chegar ao topo da carreira) é preciso determinação, competência, trabalho e vontade de servir.

Recordo-me de vários momentos que considero inesquecíveis. Entre eles, viver
os dramáticos momentos em Washington em 11 de setembro de 2001.

Na sua opinião, quem foram os grandes diplomatas brasileiros e por quê?
Rubens Barbosa
– O grande diplomata brasileiro, exemplo para todos nós, foi o Barão do Rio Branco, porque combinou competência e trabalho com habilidade política e determinação em seus objetivos. O legado de seu trabalho permite hoje que o Brasil não tenha qualquer problema com suas fronteiras.

Ao longo de sua trajetória, há algum momento que considera inesquecível? Pode nos contar?
Rubens Barbosa –
Recordo-me de vários momentos que considero inesquecíveis. Vou mencionar dois ou três. Com dois outros colegas, abrir a Embaixada brasileira em Pequim em 1975, logo depois do restabelecimento das relações diplomáticas com a China; entregar minhas credenciais à Rainha Elizabeth II ao assumir meu posto como Embaixador em Londres e viver os dramáticos momentos em Washington em 11 de setembro de 2001 quando dos ataques ao Pentágono e às torres do World Trade Center em New York.

Quais as grandes expectativas da diplomacia brasileira em relação ao futuro? O que podem esperar aqueles que acabam de ingressar na carreira?
Rubens Barbosa
– As expectativas da diplomacia brasileira hoje são muito mais promissoras do que quando ingressei no Itamaraty, há mais de 40 anos. O Brasil passa a ter gradualmente uma voz importante no contexto internacional, especialmente na América do Sul e nos organismos internacionais (ONU, OMC). Os assuntos são cada vez mais complexos e exigem mais sofisticação e objetividade dos formuladores de nossa política externa e dos diplomatas, que vão executá-la.
Os novos diplomatas podem esperar redobrados desafios e grande satisfação pessoal pelo envolvimento no desempenho de funções nos novos caminhos que irão desbravar.

Na sua opinião, qual é o ápice dessa profissão? Qual é o mais importante sonho que o diplomata deve sempre alimentar?
Rubens Barbosa – O ápice da carreira é a promoção a Embaixador. Os postos em Brasília e no exterior dependem de circunstâncias pessoais, políticas e sorte. Muito trabalho, desprendimento, criatividade, vontade de servir e de fazer ajudam muito.