| O profissional de Relações Internacionais |
A intensidade das comunicações soma-se ao aumento da complexidade das questões mundiais, exigindo um profissional capaz de analisar e agir no dinâmico cenário internacional. Se até então esse desafio era desempenhado por economistas, cientistas sociais, analistas de comércio exterior ou advogados, a necessidade de uma ação mais ampla e capaz de mapear a realidade internacional como um todo criou a demanda por um novo profissional: o analista de relações internacionais. A
forma como se deu essa demanda influencia uma das mais
importantes características da formação desse
profissional: a erudição aplicada. A formação do
analista de relações internacionais é constantemente
confundida com uma formação ampla e eclética; no
entanto, faz-se necessário perceber que não basta erudição
para atuar no mundo de hoje, é necessário também um
conjunto de conhecimentos técnicos aplicados que nos
permitam desenhar cenários e formular estratégias de ação. Ao
contrário do que podem imaginar algumas pessoas, um
profissional de relações internacionais não explica
todos os fatos internacionais. A distância de
acontecimentos de naturezas diferentes – como é o caso
de guerras, integrações econômicas, relações diplomáticas
e movimentos transnacionais – faz com que o profissional
tenha que escolher apenas uma destas áreas. Assim
como qualquer outro curso, é preciso tomar cuidado para não
ser iludido pelo glamour da profissão, geralmente
confundida com a diplomacia. Certamente a diplomacia é um
caminho possível para este profissional, porém
estatisticamente percebe-se que apenas uma ínfima parte
dos bacharéis em relações internacionais acaba na
diplomacia. A grande maioria é absorvida pela iniciativa
privada, com destaque para as áreas comerciais, mídia e
organizações não governamentais. O
constante contato com outras partes do mundo faz com que
este profissional também tenha que dominar outros
idiomas, sobretudo inglês, espanhol e francês. À
proficiência das línguas deve ser acrescida a capacidade
de rápida adaptação a outras culturas, visto que são
constantes as viagens ou mesmo mudanças de países. Nos
cursos de graduação, a carga de leitura tende a ser
grande em face da necessidade de capacitar o aluno a
perceber grandes tendências internacionais. Outro ponto
importante para a escolha desta carreira é a predisposição
que o aluno deve apresentar para fazer análises. Em
geral, esse profissional deve traçar cenários críticos
acerca da realidade internacional e, com isso, sugerir
estratégias de ação e por vezes até mesmo executá-las.
Isso faz com que o bom profissional de relações
internacionais seja aquele com perfil pró-ativo e está
sempre disposto a buscar novos desafios. Uma
boa faculdade é aquela que consegue o equilíbrio entre o
oferecimento de uma ampla gama de disciplinas e a existência
de um eixo temático que consiga dar um sentido a todo o
processo de formação. Ainda assim, o profissional de
relações internacionais terá que concluir sua formação
em um curso de pós-graduação a fim de que alcance o
grau de especialização esperado pelo mercado. As graduações em relações internacionais estão surgindo em todo o país, aumentando significativamente a oferta de vagas. No entanto, como no Brasil o curso é relativamente recente (à exceção da Universidade de Brasília, que já tem o curso há algumas décadas), não existem profissionais suficientes para ocupar as vagas de docência. Assim, uma das preocupações centrais que o estudante deve ter ao procurar uma faculdade é verificar quanto do quadro de professores é efetivamente formado na área. Se isso parece não ter importância em cadeiras como as de economia e direito, passa a ser decisivo na formação quando pensamos as disciplinas mais específicas e voltadas para a área propriamente dita (negociações internacionais, análise do sistema internacional, política internacional...). No que toca à pós-graduação, no Brasil ainda existem poucas que se focam exclusivamente na área de relações internacionais (as principais são as que participam do Projeto Santiago Dantas, do MEC). Isso faz com que surjam duas opções: (1) procurar pós-graduações no exterior, caso em que atentar não só para a faculdade que se escolhe, mas também para o país no qual o curso está inserido já que a formação é dada como um todo; e (2) a escolha de pós-graduações nacionais que não são especificamente de relações internacionais mas que podem complementar a formação, direcionando o profissional para a área de trabalho na qual quer atuar. O
campo de trabalho das relações internacionais ainda está
em fase de constituição no Brasil, de forma que ainda
encontra-se muita dificuldade e desconhecimento na inserção
profissional. Ainda assim, conforme as empresas tomam um
primeiro contato com esse profissional, percebem sua
importância e não mais deixam de contar com ele dentro
de seu quadro de funcionários. Acredita-se que nos próximos
cinco a dez anos, a profissão será suficientemente
conhecida a ponto de as empresas já terem em seus
programas de trainees
vagas especialmente dedicadas ao analista de relações
internacionais. Por
último, deve-se destacar que os principais lugares de
atuação deste profissional são as empresas
multinacionais (que necessitam traçar planos estratégicos),
as tradings e
outras empresas que trabalham com comércio exterior (que
têm constantes relações com o exterior), as organizações
não governamentais (na elaboração de projetos e captação
de recursos) e a mídia (que necessita de analistas de
acontecimentos internacionais). Rodrigo
Cintra é Bacharel em Relações Internacionais
pela PUC-SP,
Mestre em Ciência Política pela USP, Doutorando
em Relações Internacionais na UnB,
Professor-coordenador do Núcleo de Estudos de Relações
Internacionais da Unibero, Vice-presidente da Câmara de
Comércio Argentino-Brasileira de São Paulo e Consultor
de Relações Internacionais.
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