A
poção
mágica do sucesso das
Havaianas: marketing e comércio internacional
Sílvia Garcia, de São Paulo
Na década de 60, a Alpargatas lançava as sandálias Havaianas, um produto
feito de borracha e 100% nacional. Naquela época, segundo definição da
própria fabricante, era "a mais simples resposta à necessidade de
proteger os pés".
Quarenta anos depois, as Havaianas tornaram-se
um produto totalmente cult, que como dizia Jorge Amado calça "do mais
pobre ao mais rico". As sandálias calçam desde os pés menos abastados
até os de celebridades como a atriz Nicole Kidman.
Atualmente, são fabricados cinco pares por
segundo, ou seja, 105 milhões de pares por ano. Dos idos de 60 para cá,
foram fabricados nada menos que 2,2 bilhões de pares de sandálias, que numa
equação divulgada pela fabricante significa 50 voltas da circunferência da
Terra, alinhando pés de tamanho 37.
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Angela
Tamiko Hirata,
diretora de Comércio Exterior
da São Paulo Alpargatas.
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| Nos
anos 90, a Alpargatas definiu uma estratégia de
marketing que mudou completamente o status das
sandálias, lançando várias versões das
Havaianas. A partir daí começou a brilhar no
mercado internacional, nas passarelas da moda e
agora está nos pés de personalidades como o
presidente da República, a rainha Sílvia da
Suíça, a princesa Stéphanie de Mônaco e tantas
outras.
Em 2002, a
Alpargatas exportou 3,5 milhões de pares de
Havaianas para 43 países e hoje tem como seus
principais mercados Argentina, Colômbia, EUA,
Bolívia, Venezuela, Austrália, Portugal, Itália
e Espanha.
Em entrevista
exclusiva ao EstudeComex, a diretora de Comércio
Exterior da São Paulo Alpargatas, Angela Tamiko
Hirata, conta um pouco sobre essa fabulosa
trajetória.
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EstudeComex
– Há não muito tempo, as sandálias Havaianas não
tinham no Brasil o glamour que estão conquistando tanto
no País como no mercado internacional. Qual foi a
estratégia da Alpargatas para mudar o status do produto?
Angela Hirata – O glamour das Havaianas veio com
a mudança de estratégia de revitalização da marca em
1994, com o lançamento das Havaianas Top. Até então
eram somente cinco cores das Havaianas tradicionais. Essa
estratégia de revitalização incluiu o lançamento de
cores da tendência da moda, embalagens, novos expositores
e propaganda direcionada para um público consumidor de
classe média. Já no primeiro ano atingimos os objetivos
e passamos a distribuir em lojas especializadas em
calçados. Embora com volume baixo comparado às Havaianas
tradicionais, mas uma resposta bastante positiva do
mercado, abrindo um novo nicho de mercado para esse
segmento. O passo seguinte foi uma nova definição de
valor do produto. Os consumidores deviam perceber a
diferença do valor adquirido e do preço pago pelo
produto. Essa percepção muda de consumidor para
consumidor de acordo com a ocasião. Estratégia de
segmentação de produto também foi fundamental no
crescimento da família do produto, bem como a conquista
de mais espaço no mercado. Sem dúvida, a propaganda
também teve um papel fundamental na construção do valor
da marca.
A
senhora foi a precursora da idéia de levar o produto para
o mercado internacional. Naquela época pode até ter
parecido uma idéia visionária. Qual é a sensação de
ver o resultado desse sonho?
Hirata – Vim para somar à nova estratégia da
São Paulo Alpargatas de inserir seus produtos num mercado
internacional, encarando as exportações de uma maneira
estratégica. Para a empresa exportar por oportunismo,
apenas para desovar estoques ou suprir a ociosidade da
fábrica, não era seu objetivo. A minha idéia de tratar
o negócio de exportação que envolve muito mais do que
lotar um container ou realizar um embarque foi fundamental
para a conquista do sucesso no mercado internacional.
Existe um trabalho de equipe de profissionais que
trabalham com os distribuidores, promovendo as vendas e a
correta exposição dos produtos nos pontos de vendas. Sua
missão é fazer com que o distribuidor de cada país
perceba que aquela marca possui alto valor agregado, ou
seja, os primeiros momentos de trabalho foram, de fato,
posicionar e vender a marca.
Quais
são os mercados que as Havaianas conquistaram nos
últimos tempos e quais são aqueles que a Alpargatas
pretende atingir? Há produtos diferenciados para esses
mercados? Como acontece a logística de distribuição?
Hirata – Iniciou-se a exportação em 1994 em
alguns países da América do Sul, que continuamos a
trabalhar usando a mesma estratégia do mercado brasileiro
e abrindo mais o mercado. O mercado que conquistamos com a
nova estratégia de comércio exterior a partir de 2001,
iniciado pelos dois países formadores de opinião
(Itália e França) e para transmitir a imagem de produto
ícone do nosso País, e como grande promoção da marca
participamos de uma mostra sobre a América Latina na
Galerie Lafayette, em Paris, e já nesse evento iniciamos
a venda às vésperas do verão europeu. O sucesso desse
evento nessa galeria, que é uma vitrine para o mundo,
facilitou a exportação de Havaianas para outros países,
entre eles Inglaterra, Bélgica, Suíça, Grécia e
Mônaco.
O que
torna um produto tipicamente brasileiro uma paixão
mundial? Como é trabalhada a fixação da marca em outros
mercados?
Hirata – Respeitar as diferenças culturais entre
os povos é um fator importante para que o produto seja
acolhido no planeta inteiro. O bom posicionamento da
marca, a correta exposição do produto e, com certeza, a
qualidade.
Em que
momento a senhora realmente percebeu a verdadeira
conquista do mercado internacional?
Hirata – Quando um produto popular passou a
freqüentar o glamouroso mundo da moda, da televisão e do
cinema e também quando aqueles que ditam moda se dão ao
luxo de ir numa festa a black-tie usando sandálias
Havaianas, sem contar o presidente da República
Brasileira, rainha Sílvia da Suíça, princesa Stéphanie
de Mônaco, entre outros, passaram a ser vistos
constantemente usando Havaianas. A procura do produto por
donos de marcas de renome internacional, bem como as lojas
de departamentos, também de renome internacional.
As
Havaianas têm conquistado também personalidades
internacionais, como Nicole Kidman e Julia Roberts. Na
cerimônia do Oscar, os participantes receberam um par das
sandálias. Fale um pouco dessa estratégia.
Hirata – Nos EUA, foi preciso reestruturar o
mercado e reposicionar a marca Havaianas. Para isso,
tivemos várias ações como: participar da Semana de Moda
de Nova York, MTV, Grammy e a festa do Oscar, isso tudo
foi um trabalho em conjunto com o nosso distribuidor dos
EUA, que tem feito um excelente trabalho de divulgação
da marca utilizando as importantes personalidades ou
eventos que agregam valor à marca e formadores de
opinião.
Na sua
opinião, qual a melhor forma de se agregar valor a um
produto, já que o próprio ministro do Desenvolvimento,
Luiz Fernando Furlan, faz apologia da agregação de valor
aos produtos nacionais?
Hirata – A melhor forma de agregar valor a um
produto, como já disse, é o bom posicionamento da marca,
a escolha correta de distribuição e o acompanhamento e o
suporte nos pontos de vendas.
Recentemente,
a mídia divulgou que há um novo modelo de Havaianas com
jóias da H. Stern e que o par custa R$ 60 mil. Existem
outras parcerias nesse sentido e qual é o preço médio
das sandálias no mercado internacional?
Hirata – O preço médio de sandálias de linha
na Europa gira em torno de EUR 25 a EUR 30, nos EUA, em
torno de US$ 10 a US$ 15. Quando se fala em Havaianas
customizadas, o preço varia entre US$ 100 e US$ 120.
Na sua
opinião, qual a importância de um profissional de
marketing para a área de comércio internacional?
Hirata – Para a área de comércio internacional,
é necessário ter um profissional que tenha ampla visão
de marketing.
Como
deve agir o profissional de comércio exterior para
internacionalizar empresas e produtos?
Hirata – Habilidade em detectar o seu
mercado-alvo, não ter preconceitos de culturas diferentes
de cada país, conhecer bem o seu produto e saber
posicionar a marca corretamente.
Atualmente,
a Alpargatas tem projetos de trabalhar outros produtos
para o mercado internacional? Quais?
Hirata – A Alpargatas tem outras marcas e
produtos, que já estamos introduzindo em diversos
países, são eles: Rainha, Topper, Lonas &
Coberturas, Samoa, Conga, Botas de Borracha, e as marcas
licenciadas Timberland e Mizuno nos mercados do Mercosul.
A
senhora sempre fala da importância do trabalho em equipe
e de certas qualidades fundamentais ao sucesso
profissional. Que dicas daria aos profissionais de
comércio exterior?
Hirata – A importância do trabalho em equipe
não se resume apenas no comércio exterior, mas sim em
todas as áreas, nenhum profissional obtém sucesso
sozinho. A soma da especialização e competência
individual em equipe é o que faz o sucesso de um negócio
ou de uma empresa. O recado que dou para os profissionais
de comércio exterior é que sejam, de fato, um
"profissional" que tenha conhecimento da área e
que esteja sempre aberto a absorver as mudanças
socioeconômicas dos países onde atua.
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