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Alta performance profissional depende do aprendizado de línguas

Márcia Bresciani


Em entrevista exclusiva para o
EstudeComex, o presidente da Organon do Brasil, Arthur Maertens, observa a importância do aprendizado de outras línguas para a alta performance em sua vida profissional.

A Organon do Brasil é uma empresa farmacêutica holandesa, que atua no mercado internacional desde os anos 20 e conta com 160 empresas e aproximadamente 68 mil funcionários.

Maertens está no Brasil há pouco mais de um ano e está aprendendo a língua portuguesa. Em cada país que visita a trabalho, busca aprender a língua nativa. Já trabalhou na França, Rússia, Taiwan, Arábia Saudita, entre outros. Atualmente, fala as línguas inglesa, portuguesa, russa, alemã e francesa, esta última sua preferida.

Nesta entrevista, ele conta sobre suas atribuições como presidente da Organon, fala dos países que visitou e das peculiaridades dessas línguas e desses povos, do aprendizado de novos idiomas e da relevância disso para a vida profissional.

Confira agora um pouco da experiência de Arthur Maertens.


UMA OUTRA RAZÃO PARA SE APRENDER A LÍNGUA LOCAL É A VANTAGEM (OU PODEMOS CHAMAR DE EFEITO COLATERAL) DE AUMENTAR SEU PRÓPRIO VALOR AGREGADO NO MERCADO PROFISSIONAL.
É MAIS UM DIFERENCIAL.

 

EstudeComex – Conte-nos um pouco da história da Organon.
Arthur Maertens
– A Organon foi fundada em 1923, em Oss, Holanda. Estamos no Brasil desde 1940, sendo uma das empresas farmacêuticas pioneiras no País. Em 1969, com o intuito de unir forças em diversos setores, a Organon juntou-se à Aku, Koninklijke & Zout, recebendo então a denominação Akzo. Em 1994, surgiu a Akzo Nobel, com a aquisição da Nobel Industries, e a Organon passou a contar com 160 empresas em todo o mundo e cerca de 68.000 funcionários. Nosso papel é oferecer uma qualidade de vida melhor, por isso a empresa está sempre atenta às constantes mudanças, oferecendo os mais atualizados produtos do mercado. Os processos industriais adotados na Holanda são criteriosamente seguidos por suas filiais no mundo todo. Conseqüentemente, os produtos fabricados no Brasil são exportados para outros mercados. Mas não é só isso que nos torna diferentes: somos uma companhia de pessoas felizes e procuramos passar essa felicidade aos nossos parceiros. A Organon do Brasil tem como lema interno o slogan "Paixão pelos Clientes". Como sabemos que não existe paixão sem respeito, disponibilizamos um espaço com o maior número de serviços e de informações atualizadas, de maneira transparente aos nossos clientes. Preocupados com a inovação, nos propusemos a utilizar esse espaço como fonte de esclarecimento nas áreas de contracepção, menopausa, depressão, ansiedade, insônia, anesteseologia e infertilidade. Sabemos que o maior reconhecimento do nosso trabalho é termos clientes felizes e satisfeitos com nossos produtos.

Na sua opinião, qual é o grande diferencial da Organon?
Maertens – A empresa está há cinco anos consecutivos entre as 100 melhores, e, em 1º lugar, no setor farmacêutico. Em 2003, pela primeira vez está entre as 10 melhores. O grande diferencial identificado pela Revista Exame (autora do prêmio) é nossa constante busca por transparência, ética, desenvolvimento de pessoas e um certo nível de informalidade nas relações, o que cria um agradável e favorável ambiente de trabalho.

Quais as funções de um presidente em uma empresa desse porte?
Maertens – No aspecto geral, minhas principais funções são estabelecer a visão estratégica da empresa, garantir a boa implementação dela (considerando e respeitando a cultura corporativa), incluindo a responsabilidade final dos resultados financeiros, isto é, faturamento e lucro. Num âmbito mais específico são de minha responsabilidade: aumentar a produtividade, introduzir programas de excelência em marketing & vendas e aumentar a participação nos segmentos de contracepção e psiquiatria por meio de lançamentos de novos produtos. Para tanto, estão envolvidas as áreas de manufatura, marketing & vendas, finanças e recursos humanos.

O aprendizado de línguas é essencial para um profissional do seu nível? Em termos de performance profissional, qual a relevância do conhecimento de línguas e da compreensão das diferenças culturais? Pode-se dizer que é um recurso facilitador na eficácia da comunicação?
Maertens – Os motivos que me levaram a aprender o idioma nos diversos países em que trabalhei são profissionais e pessoais. Por parte da empresa, não é obrigatório falar a língua do país em que se está trabalhando, embora eu tenha a plena convicção de que o idioma local melhora consideravelmente a eficácia da comunicação dentro da própria empresa, além de facilitar a aproximação e os contatos com os clientes, fornecedores, representantes e parceiros. Ao mesmo tempo, tenho motivos pessoais como o gosto pelo aprendizado de línguas e também a certeza de ser a única maneira de realmente entender e se integrar à cultura de um país e de seu povo, como neste caso, o Brasil. À parte disso, a alternativa seria viver numa ilha isolada, como expatriado, relacionando-me somente com outros estrangeiros que aqui vivem desse modo. Ao meu ver, seria uma oportunidade perdida de enriquecer minha vida e a de minha família. Por esta razão, tento fazer amizade com brasileiros, mais até do que com compatriotas, que já encontro normalmente de todo jeito. Uma outra razão para se aprender a língua local é a vantagem (ou podemos chamar de efeito colateral) de aumentar seu próprio valor agregado no mercado profissional. É mais um diferencial. Aprender o primeiro idioma estrangeiro é, provavelmente, mais difícil. Aprender outros pode ser mais fácil por causa das similaridades entre algumas línguas, por exemplo, francês e português. Além disso, quanto mais idiomas conhecemos, maior o nosso referencial para buscar associações entre eles. Há também uma maior receptividade para os próximos aprendizados, pois se tornam mais naturais o medo e a vergonha de cometer erros, e mais fácil combatê-los, uma vez que o aluno já passou por isso antes.

Comente um pouco sobre os idiomas que já aprendeu, as diferenças culturais e as expectativas em relação ao Brasil e ao seu idioma.
Maertens – Nos diversos países em que estive a trabalho, me deparei com diferentes dificuldades culturais. Na França, por exemplo, o modo centralizado e hierárquico de se trabalhar e a cultura fechada e restrita à família estendida, formada pela família direta e pelos amigos mais íntimos e antigos, torna muito difícil de se estabelecer um relacionamento social. É preciso muito tempo para isso. Já na Rússia, a dificuldade foi viver e trabalhar num país com mais de 70 anos de comunismo (cheguei lá imediatamente após sua queda). Nessa época, o povo não conhecia conceitos como colaborar, agregar valores etc. A piada clássica era: nós fingimos trabalhar e o governo finge pagar nossos salários. Foi um grande desafio estabelecer uma empresa moderna e eficaz num ambiente de pessoas sem uma educação ocidental, em que a palavra marketing não existia, muito menos o seu conceito. Em Taiwan, a dificuldade foi compreender a cultura de símbolos que é a cultura chinesa, muito formal, subjetiva e indireta. Não é comum se usar as palavras sim ou não, para evitar confrontos ou situações delicadas. São palavras muito diretas e assertivas para uma cultura que preza a retidão de olhar, a impassibilidade de gestos e expressões faciais. Tudo para evitar o "loss of face". Portanto, não é realmente fácil entender o que as pessoas acham ou pensam. Como no Oriente Médio há mais de 20 países, obviamente não se tem uma única cultura nessa região. A Arábia Saudita preserva uma cultura muito conservadora. Já na parte cristã do Líbano, a cultura é bem mais liberal.

Você precisa conhecer, se adaptar e até mesmo tomar cuidado com essas diferenças culturais quando viaja constantemente. Por exemplo, no Irã, não se pode apertar as mãos de mulheres vestidas com roupas tradicionais e com os rostos cobertos. Mas, se no dia seguinte você estiver no Líbano, prepare-se pois as mulheres modernas esperam um beijo de você. Quanto ao Brasil é quase certo não encontrar dificuldades com um povo tão hospitaleiro. Talvez o foco no hoje, o imediatismo, possa ser considerado como uma certa imaturidade. Às vezes faltam visão e planejamento a longo prazo, principalmente na hora da tomada de decisões. Deve-se tomar decisões definitivas e não somente provisórias ou paliativas. A respeito de minhas expectativas em relação à língua portuguesa, preciso admitir que o meu padrão foi bastante alto. Meu objetivo era falar fluentemente e facilmente em um ano, como se deu com o francês, o que não aconteceu. Tornou-se um sonho, pois descobri que é uma língua mais complicada do que aquela falada em Paris. Embora não esteja dominando completamente a língua brasileira, já consigo me sair muito bem e entender praticamente tudo na minha vida diária. No final das contas, até que não foi tão ruim. O último e maior desafio é conseguir entender as músicas brasileiras de ritmo mais acelerado.

Em relação às línguas que fala, qual a mais complexa?
Maertens – O idioma que considero mais fácil, e o mais utilizado internacionalmente, é o inglês. O alemão também acho fácil, porém não é tão utilizado. O de que mais gosto, pessoalmente, é o francês, embora não seja tão fácil. Já o russo, na minha opinião, é o mais difícil dentre os que conheço. Em segundo lugar, no quesito dificuldade, está o português – esta charmosa, porém complicada língua.


Márcia H. R. Bresciani é professora de português e inglês e diretora da Real Time Idiomas. Atualmente, Bresciani é professora de Arthur Maertens.