ENTREVISTA

Para atender à nova realidade do mercado de trabalho:

Dallari defende a fusão de Relações Internacionais com Comércio Exterior

Dirceu M. Coutinho, de São Paulo


 

 

 

 




O professor Pedro Dallari, em entrevista exclusiva, garante que a integração dos dois cursos superiores seria muito útil ao profissional e ao País. 

Haveria apenas um curso superior, com duas ou três  habilitações.
A Aduaneiras lançará livro com os fundamentos de vários professores.  

Até poucos anos atrás, no Brasil pouco se falava de comércio internacional. Aliás, o comércio exterior era incipiente, pois quase nada se podia importar. 

O
fechadíssimo Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores, mantinha – como até hoje – o Curso de Formação de Diplomatas. A partir da década de 90, o País começou a abrir o mercado interno para o mundo, embora de forma atabalhoada. Começou, então, a demanda por profissionais de Comércio Exterior/Relações Internacionais, estimulando, em conseqüência, a abertura de cursos superiores. Segundo o professor Pedro Dallari, que é da USP e da FMU – Centro Universitário, o número de alunos nesses cursos é cada vez maior. Ele explica que, com o decorrer do tempo, surgiu uma dicotomia: Curso de Relações Internacionais e Curso de Comércio Exterior.

Eis os principais aspectos da entrevista do professor Dallari:

 
 

Integração – Quais as perspectivas dos cursos de Relações Internacionais?
Pedro Dallari – Temos notado um aumento enorme do interesse pela procura de cursos de Relações Internacionais. O número de alunos nesses cursos é cada vez maior. Isso, realmente, está nos obrigando a uma reflexão, porque os alunos que se matriculam nesse curso têm interesses em áreas muito diferentes, como Economia, Política, Administração etc. Está nos obrigando a uma nova reflexão sobre o próprio objeto de estudo das relações internacionais.

Quer dizer que quem entra no curso de Relações Internacionais nem sempre está decidido a seguir uma carreira específica?
Na verdade, com o decorrer do tempo, surgiu uma separação que, a meu ver, precisa ser enfrentada. É que, inicialmente, foram criados os cursos de Comércio Exterior, que estavam muito voltados para a área dos Negócios Internacionais. Mais tarde, foram sendo criados os cursos de Relações Internacionais.

Quer dizer que existem cursos de Relações Internacionais e cursos de Comércio Exterior?
Sim. Os cursos de Relações Internacionais, no início, eram voltados para esta área – de Política e de Relações Institucionais. Diplomacia, por exemplo. Há pessoas que estudam Relações Internacionais com o objetivo de serem diplomatas. Na verdade, a meu ver, essa separação é que tem de acabar. No meu entendimento, deve ser feita uma fusão dos cursos de Relações Internacionais, que são, realmente, muito voltados às Relações Políticas, com os cursos de Comércio Exterior, totalmente voltados para a área de Negócios. Então, a minha avaliação é que o mais adequado para a realidade brasileira seria que houvesse um curso de Relações Internacionais de formação ampla e, no final do curso, poderia se promover – como já existe nos cursos de Administração – as habilitações. 

Ou seja, o aluno faria o curso de Relações Internacionais com habilitação em Negócios ou em Comércio Exterior, por exemplo. Ou faria um curso de Relações Internacionais com habilitação na área de Relações Institucionais, que é mais voltada à política internacional. Ou, ainda, poderia fazer o curso de Relações Internacionais, concluindo com habilitação na área de Intercâmbio Internacional, que é relacionado à promoção de eventos; ao relacionamento cultural; à própria área do Turismo Internacional; ou seja, parece-me que deveria existir o curso de Relações Internacionais com conhecimentos generalizados de Economia, de Direito, de Ciências Sociais e, a partir do meio do curso, o aluno optaria por uma dessas três habilitações. 

Essa situação me parece melhor que a atual separação que existe entre os cursos superiores de Relações Políticas Internacionais, de um lado, e de Comércio Exterior, do outro. O profissional que se forma em Relações Políticas Internacionais, de certo modo, fica defasado em relação às áreas econômica e negocial. Da mesma forma, o profissional que vem do curso superior de Comércio Exterior tem uma bagagem menor destas áreas de Ciências Sociais e de Direito.

Com essa nova situação, como ficarão os cursos de treinamento em Comércio Exterior?
Obviamente que permanecerão. Defendo uma proposta que se baseie no entendimento mútuo e não de forma autoritária ou burocrática. Acho que se quiserem prosseguir com cursos superiores só de Comércio Exterior, não vejo problema. Como também não vejo problema em cursos superiores só de Relações Políticas Internacionais. O que eu acho é que está na hora de surgirem cursos – e na FMU temos tido essa preocupação – mais abrangentes, que procurem, num único curso, contemplar essas duas demandas (curso de Relações Políticas Internacionais e curso de Comércio Exterior). 

Seria melhor para os alunos e melhor para os profissionais. A formação em Relações Internacionais, nesse sentido mais amplo que estou defendendo, pode contemplar diversos níveis para o profissional que sai desse curso superior, inclusive áreas que não de Relações Políticas Internacionais e de Comércio Exterior, como este segmento de Intercâmbio, de Eventos Internacionais, que vem crescendo cada vez mais. 

Hoje, o chamado Turismo de Negócios, os eventos em geral, os eventos empresariais são atividades que estão explodindo. E não é comércio e nem diplomacia. É um terceiro segmento a ser considerado posteriormente. No meu entendimento, os cursos superiores de Relações Internacionais e de Comércio Exterior deveriam refletir suas vocações e objetivos. Acho que, realmente, deveria haver uma integração entre eles. Não se trata de eliminar um ou outro, mas os integrar.

Com essa pretendida habilitação como ficariam os cursos técnicos intensivos?
Eles não são cursos superiores. Portanto, continuarão existindo, acredito que até com maior demanda. Tratam-se de cursos técnicos intensivos. É fundamental que continuem existindo e até se aprimorando. São cursos verticalizados, direcionados a algum aspecto do Comércio Exterior: parte tributária, logística, aduaneira, cambial, de frete etc.

O CURSO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS da FMU JÁ É DIRECIONADO PARA ESSA IDÉIA MAIS ABRANGENTE.

 É bom ficar bem claro: quando estou falando nessa integração, é importante entender que estou tratando estritamente dos chamados cursos superiores de longa duração. São cursos de quatro ou cinco anos, em geral. Entendo que, se o aluno durante quatro anos, em vez de só estudar Comércio Exterior ou só Relações Políticas Internacionais, tiver os dois segmentos, me parece extremamente valioso. Acho que o profissional que sair desse curso integrado é um profissional completo, útil ao País e, portanto, com melhores perspectivas de um bom emprego.

Como o MEC veria essa fusão?
Na prática, isso já vem ocorrendo. Alguns cursos de Relações Internacionais estão se redirecionando para incorporar na sua grade curricular estas disciplinas mais relacionadas aos negócios internacionais, como Comércio Exterior e Finanças Internacionais. Gostaria de chamar a atenção, por exemplo, para o curso de Relações Internacionais da FMU, que já é direcionado para essa idéia mais abrangente. Em livro que deverá ser lançado pela Aduaneiras, no segundo semestre, faremos uma exposição ampla e bem fundamentada dessa nova visão, abordada aqui superficialmente. O livro vai ser escrito pelos professores do curso da FMU – Centro Universitário. E, me parece, que também a Faap mantém um curso de Relações Internacionais já com essa perspectiva mais abrangente.


Fonte: Revista Integração Econômica no 4