Carreiras Públicas


A formação do diplomata:
uma preparação de longo curso




A carreira diplomática tem atraído número crescente de jovens em decorrência da maior inserção internacional do Brasil e dos avanços da globalização e da regionalização. 

Os candidatos têm, em geral, procurado os Cursos de Graduação em Relações Internacionais.


Paulo Roberto de Almeida

Cabe indagar se esses cursos fornecem a preparação adequada para o concurso do Itamaraty e, alternativamente, considerando que apenas um número restrito será admitido na carreira, se eles fornecem os instrumentos necessários para lograr uma boa colocação no setor privado, que é ainda o grande "absorvedor" da oferta universitária.

Não é tampouco certo que um Curso de Graduação em Relações Internacionais seja a melhor via de acesso à carreira diplomática, uma vez que os requerimentos de entrada são mais amplos, ou mais específicos, do que a grade curricular desses cursos, ainda desiguais e com ênfases distintas nos vários Estados: alguns são teóricos, voltados para a pesquisa em política mundial, outros colocam ênfase no comércio internacional e no chamado global business (o que pode ser uma orientação correta, se pensarmos que as relações econômicas internacionais compõem o essencial da agenda contemporânea). Os cursos tradicionais – Direito, Economia ou Administração, com um complemento em línguas – podem ser mais úteis ao aspirante à carreira, já que ele poderá exercer também as profissões pertinentes. Ele pode, depois, buscar uma especialização em Relações Internacionais, familiarizando-se com os debates teóricos e com a agenda da política mundial.

Em todo caso, o candidato à carreira pode não receber num curso de graduação, ou num preparatório de 6 ou 12 meses, o conhecimento de que necessita para atender aos requisitos do concurso do Instituto Rio Branco. Ele precisa ter sólida formação, feita geralmente de anos de acumulação de cultura humanista e de incontáveis leituras. Mais do que qualquer curso ex-catedra, o importante é o esforço individual do candidato, que será idealmente um autodidata. Um curso de preparação à carreira pode ajudar ao transmitir um "conhecimento mastigado" e alguma "segurança psicológica". Mesmo vindo de família modesta e carente de aperfeiçoamentos no exterior ou em cursos de línguas, o candidato motivado pode suprir lacunas pessoais ou de ambiente social ao construir o seu próprio curso, mediante um sério programa de estudos sistemáticos, feito da bibliografia sugerida pelo IRBr, da leitura diária de um jornal econômico e do acesso constante à Internet (como The Economist, Financial Times, Foreign Affairs e outros sites especializados).

Nos últimos anos, o Instituto Rio Branco tem aprovado um em cada 80 ou 100 candidatos: a seleção é, portanto, rigorosa, e a grande maioria deverá buscar uma outra profissão dentro da área, na espera de poder um dia ingressar na carreira. O mercado é basicamente constituído pelo setor privado e cabe ao jovem ter consciência disso desde o início. Algumas faculdades mantêm cursos com perfil excessivamente acadêmico, feito de matérias teóricas ou de disciplinas voltadas para os grandes equilíbrios geopolíticos do cenário internacional, como se todos os seus egressos fossem passar a vida discutindo as teorias realista ou racionalista de relações internacionais ou resolvendo algum problema no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Esta não é a realidade da agenda mundial, que, mesmo em sua vertente negocial, é feita mais de questões de comércio internacional que de problemas relativos ao poder mundial.

Algumas especializações podem responder melhor ao perfil específico para uma inserção nos mercados regionais de trabalho. Uma cidade como Brasília, governamental e diplomática por excelência, chama naturalmente uma formação centrada nas disciplinas diretamente ligadas à diplomacia (Direito, História, Línguas, Economia Internacional), para um trabalho no governo, nas organizações internacionais ou no meio acadêmico. Metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, onde se localizam a maior parte das empresas internacionais brasileiras e o grosso das multinacionais (em atividades diversas dos serviços e da indústria), requerem formações voltadas para o chamado global business, com matérias de comércio exterior, finanças internacionais etc.

No Sul do País, mais voltado para atividades do agribusiness e em contato direto com os parceiros do Mercosul, as especializações podem estar no comércio internacional (inclusive normas relativas ao Mercosul), em questões fitossanitárias e no domínio da língua espanhola.

Alguém dotado de conhecimento acadêmico, de uma boa disposição para o auto-aprendizado e de senso prático em algumas das áreas mencionadas tem chances de subir em qualquer profissão, à medida que sua experiência de vida vai colocá-lo em contato com pessoas dotadas de densidade nessas áreas. Nunca se deve chegar num primeiro emprego como se não se necessitasse de treinamento ou de aperfeiçoamento técnico e profissional. Atitudes do tipo "eu sei fazer", "eu sei tudo", "deixa comigo", geralmente, conduzem a desastres ou, pelo menos, a situações de constrangimento funcional.

A carreira diplomática é única nos seus requisitos de entrada, não apenas em termos da bagagem intelectual acumulada ao longo de anos de estudo, mas também no sentido em que o diplomata deve exibir algumas qualidades de convivência e de interação social que serão importantes no desempenho ulterior. Por isso, os exames de ingresso na carreira envolvem disciplinas tradicionais, mas também entrevistas com banca examinadora que julga as aptidões do candidato para aquele tipo de profissão: a maturidade entra em linha de conta nesse contexto, o comportamento social, assim como a própria aparência pessoal.


Paulo Roberto de Almeida é Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Bruxelas (1984), mestre em Planejamento Econômico pela Universidade da Antuérpia (1977) e licenciado em Ciências Sociais pela Universidade de Bruxelas (1975), sendo diplomata de carreira desde 1977 e professor universitário, com muitos livros publicados nas temáticas de integração, relações internacionais e história diplomática.

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