Carreiras

A atividade portuária como ferramenta 
de Comércio Exterior

O novo perfil e os desafios do trabalho nos portos

João Emílio Freire Filho


Poucos ramos de atividade sofreram alterações tão profundas em tão curto espaço de tempo quanto a atividade portuária no Brasil. Como resultado da sua privatização, viabilizada pela Lei nº 8.630, de 25/02/93, os portos passaram por uma verdadeira revolução que modificou o enfoque, a tecnologia, o trabalho e as relações dentro do porto, e deste com a sociedade.

A operação portuária moderna se assemelha a uma atividade de produção de eventos, como um show, no qual uma grande quantidade de participantes (espectadores no show, cargas no porto) terão que ser satisfatoriamente atendidos pela equipe de produção, dentro de um prazo determinado e com certos padrões de qualidade e preço que tornem o evento viável, maximizando o uso das instalações existentes e tornando-as adequadas para o máximo de sucesso do evento.

O NOVO PROFISSIONAL DE PLANEJAMENTO DA ATIVIDADE PORTUÁRIA PRECISA SER UM INDIVÍDUO INTELECTUALMENTE ÁGIL, PRÁTICO, VOLTADO PARA A PRODUÇÃO DE RESULTADOS E COM BOM CONHECIMENTO DA LÍNGUA INGLESA.

De acordo com essa visão, os custos envolvidos, os prazos requeridos e as quantidades operadas, em conjunto, fazem com que a produtividade da operação seja condição fundamental para o atual sucesso de um porto, ou terminal. Os navios cresceram de porte e a unitização, ou consolidação das cargas soltas, passou a ser elemento crítico para dar velocidade ao embarque/desembarque das cargas. O trabalho portuário, que antes residia na força muscular do trabalhador, passou para uma escala na qual é praticamente impossível, e até mesmo perigoso, o uso de força humana na movimentação das cargas. Evoluiu para um estágio tecnológico, com uso de equipamentos cada vez mais possantes e velozes. Hoje o trabalho portuário é muito mais de inteligência, planejamento e preparo, que de força.

Mas a privatização não trouxe apenas uma revolução no trabalho da carga no porto, trouxe também um novo enfoque do terminal na sua relação com o usuário do porto. O usuário foi, finalmente, promovido a cliente do porto, com todas as vantagens e ônus dessa nova posição. Isso passou a requerer uma nova abordagem mercadológica dos terminais, com a realização de um esforço junto aos clientes para melhor atender aos requisitos de sua logística de exportação.

A situação geográfica do Brasil em relação aos grandes mercados internacionais faz com que mais de 80% das trocas comerciais brasileiras dependam diretamente da eficiência e do custo do transporte marítimo, o que torna os portos ferramentas indispensáveis para a nossa logística de comércio exterior. No entanto, a atividade portuária ainda não desperta na sociedade um destaque à altura dessa sua importância. Em sua relação com a sociedade, o porto precisa deixar de ser visto pelas suas desvantagens do passado, e mostrar as inúmeras vantagens que oferece como moderna ferramenta econômica e centro logístico de comércio.

A competição pelo cliente começa, hoje, não mais à beira-mar, mas no campo, na indústria e nos grandes centros de comércio, pois é lá que, agora, estão as oportunidades de negócios logísticos. Por isso, o novo profissional de planejamento, operação ou administração da atividade portuária precisa ser um indivíduo intelectualmente ágil, prático, voltado para a produção de resultados e com bom conhecimento da língua inglesa – atual padrão internacional para a comunicação com empresas e embarcações estrangeiras. Além disso, é indispensável uma boa formação em organização, produção e planejamento, bem como conhecimento e treinamento nas tecnologias de operação portuária, o que lhe permitirá ser capaz de antever as novas oportunidades de negócio possíveis com o uso da organização existente em seu terminal, e, também, as que poderão ser geradas pela contínua e crescente evolução tecnológica do setor.

Da mesma forma, é indispensável saber atrair os armadores – hoje quase todos estrangeiros – como forma de assegurar uma freqüência suficiente de navios capaz de atender à demanda dos clientes do terminal.

O que se pode prever, hoje, é que os terminais que se desenvolverem como plataformas logísticas, com políticas de operação/serviço voltadas para integrar, e, se possível, comandar a respectiva cadeia logística, terão melhores oportunidades competitivas nesse mercado, no qual é cada vez mais necessária a prestação de um serviço de porta-a-porta, tanto no comércio internacional, quanto no doméstico. No caso brasileiro, o ressurgimento da cabotagem – elemento fundamental para redução do custo dos fretes internos – também fará com que os terminais desempenhem um papel importante para viabilizar as operações de transbordo e de formação de portos concentradores, pois somente assim será possível dotar o país de um transporte marítimo à altura dos seus mais de 8.000 km de costa.

O domínio do conhecimento das diferentes cadeias logísticas para cada tipo de produto e ligação porta-a-porta será ferramenta fundamental num mercado onde os patamares serão faixa de preço total viável para a remuneração do serviço e faixa de tempo admissível para a prestação do serviço, ou seja o custo total porta-a-porta e o tempo total porta-a-porta. Isso envolve terceirizações que requerem um grande conhecimento das rotas de transporte, impostos, legislação envolvida e custo e prazo de serviços, pois nem sempre o menor trajeto geográfico é o mais barato ou mais rápido, como já foi demonstrado num famoso case de empresas de courier nos EUA. A otimização desses fatores é a chave para a competitividade nesse setor.

Os desafios envolvidos com a missão que está reservada ao Comércio Exterior, como principal instrumento para viabilizar o desenvolvimento econômico e social do País e a criação dos indispensáveis novos postos de trabalho, fazem com que a atividade portuária seja, sem dúvida, uma das que oferece as maiores e mais desafiadoras  possibilidades de desenvolvimento profissional, a curto, médio e longo prazo para os profissionais que estiverem realmente capacitados. Formá-los e desenvolvê-los é parte desse desafio.


João Emílio Freire Filho é assessor da Comissão Portos Movimento que reúne 44 entidades empresariais e da ABTP – Associação Brasileira dos Terminais Portuários, engenheiro, especialista em Administração e Planejamento Portuário pelo IME - Instituto Militar de Engenharia, e professor do MBA em “Portos e Logística”, das Universidades Gama Filho e Católica de Santos.
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