Carreiras
O advogado e os desafios atuais

Cleber Rangel de Sá


Alguns ainda guardam a velha imagem do advogado de anos atrás, quase como uma espécie de alquimista preparado para “desvendar” os mistérios da lei.

Depois, no fórum, um lugar inacessível à maioria dos cidadãos, o juiz, uma figura quase “divina” para muitos que, decidia a vida das pessoas, ajudado pelo promotor e por esse advogado.

Isso vem da nossa herança jurídica. No século XIII, uma parte dos países de então adotou o costume como instrumento para decidir os seus conflitos. Outros povos adotaram um sistema amparado essencialmente na lei, até mesmo criando um ditado: “A Lei é dura, mas é a Lei.”

OS TEMPOS COBRAM DAS PESSOAS E DAS CORPORAÇÕES A CAPACIDADE DE DESENVOLVER MEIOS E MODOS DE SOLUÇÃO DOS SEUS PRÓPRIOS PROBLEMAS, DE PREFERÊNCIA BEM LONGE DO PRÉDIO DO FÓRUM.

Não é preciso muito esforço para concluir que os povos que influenciaram a cultura jurídica brasileira optaram pelo sistema que privilegia a lei. Tanto é que o inciso II do artigo V da Constituição Federal do Brasil determina que: “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”.

Esse modo formal de pensar e de agir teve origem e acabou por influenciar a formação dos nossos operadores do Direito e a opinião da sociedade sobre eles. O advogado, por estar mais perto do dia-a-dia das pessoas, acabou ficando em maior evidência.

Mas os tempos mudaram.

Qualquer curso superior, especialmente o de Direito, deixou de ser o ponto de chegada da trajetória de formação. O curso de graduação jurídica passou a ser parte de um grande caminho, agora chamado de educação continuada, que incorpora diariamente as descobertas de uma sociedade que não pára de se desenvolver tecnologicamente.

Os advogados não são exceção. Eles não podem ficar limitados ao ambiente jurídico tradicional ou serão “atropelados” pelos novos tempos.

Não se pode ignorar que, hoje, as pessoas incorporam rapidamente nas suas vidas uma multiplicidade de conhecimentos entrelaçados.

Os cursos de pós-graduação lato sensu são a maior ferramenta de aprimoramento profissional dos graduados em Direito, que incorporam à sua formação as experiências do mercado.

E o comércio exterior significa um caminho dos mais promissores porque oferece ao profissional múltiplas oportunidades de crescimento, seja de empregabilidade, seja na criação de perspectivas para o início de um novo negócio por conta própria.

Então, a nova realidade exige que o profissional atuante na área jurídica esteja atualizado, antes de tudo, com os eventos do seu tempo, mas ciente de que a humanidade não somente preservou e criou valores, mas, também, vícios. E o comércio exterior traduz esse novo estado de coisas.

É impensável, hoje, que um profissional da área jurídica não tenha mínimos conhecimentos de informática, da atividade do seu empregador ou do seu cliente, de temas de comércio internacional e, pelo menos, de uma língua estrangeira.

Também é impossível que esses homens ignorem todas as mudanças que estão em andamento a partir das nações, dos blocos econômicos formados e em formação. Enfim, eles não podem ignorar que até mesmo a geopolítica do mundo está sendo modificada diariamente.

Os tempos cobram das pessoas e das corporações a capacidade de desenvolver meios e modos de solução dos seus próprios problemas, de preferência bem longe do prédio do fórum.

É que o Estado, ao qual a sociedade civilizada deu poderes para distribuir justiça, mostra, diariamente, a sua saturação e a sua incapacidade de bem desempenhar o seu papel. O Estado tem permanecido bem longe das pessoas. E este não é um problema exclusivo dos países situados abaixo do Equador.

A sociedade está exigindo que o advogado, um dos operadores do Direito, seja, antes de tudo, um intérprete do seu tempo, um mediador de interesses, um profissional capacitado a fazer valer, mas, antes de tudo, a harmonizar posições, empregando energia para o desenvolvimento das pessoas e das corporações.

Restou o caminho da imaginação e da formação continuada. O estudo das relações internacionais, seja entre países/blocos econômicos, seja entre pessoas e empresas, significa um grande passo para o progresso profissional.


Cleber Rangel de Sá é advogado, sócio da Rangel de Sá Advogados Associados, integrante do III Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-SP e professor de Magistério Superior. 
E-mail: rangel@rangel.adv.br